Fazer brotar, ver crescer

            Sabia dizer com certa precisão que horas eram, pela manhã, porque o sol ia passeando pelos buraquinhos mínimos do telhado, quase em fila para funcionarem como relógio. Saía cedo, com o pai e os irmãos, e iam fazer o que tinham de fazer. Ele mais ia de folia do que por necessidade, porque ainda era muito novo, ainda antes dos cinco anos. Carregava marmita como os outros. A diferença é que aproveitava o caminho, enquanto os mais velhos só sabiam ver o trabalho, lá na frente, no horizonte. Ele, não. Via cercas, bichinhos a subir pelas cercas, o gado, os cachorros que se perdiam por ali, magros e carentes, línguas expostas.

                Depois chegava a parte de que Giovane mais gostava. Os porcos do patrão. Tantos, de todos os tamanhos. Os pequenininhos eram lindos. Era quase todos os dias que o pai tinha de chamá-lo pelo nome, voz grave, pra ele desempoleirar da mureta e parar de olhar os porquinhos, todos eles a disputar as tetas da mamãe porca, enorme, deitada no chão. Ele saía, mas contrariado. Queria tanto um porquinho. Um porquinho que fosse seu, que fosse morar na sua casa, no quarto que ele dividia com os irmãos. Eles queriam outras vontades. As irmãs mais velhas queriam as roupas das vitrines da cidade. Os irmãos, ou alguma guloseima que raro chegava à roça, ou uma camisa nova, ou um brinquedo­­­ – os menorezinhos, do tamanho dele. Eram oito, se estavam todos eles. Quatro meninos, quatro meninas. E um que estava na barriga da mãe, o que iria desempatar. Mas Giovane queria muito um porquinho, um leitãozinho cor-de-rosa para ser o companheiro seu, para ladear a sua meninice de brincar no quintal.

                Um dia o pai, homem bom que era, vendeu o feijão que havia colhido. Juntou o que já tinha de antes e negociou um leitãozinho com o patrão. Quando viu o pai cruzando o quintal de terra, era bem à tardezinha, com o porquinho no colo, Giovane não sabia bem o que fazer. Não sabia o que dizer, não conseguia agir. O pai soltou o bichinho no chão, e ele mal se mexeu. Nem precisava. Giovane correu até o leitão, apertou-o contra si e logo o amava. Amava o porquinho que, na verdade, era uma porquinha. A porquinha dele, sua companheirinha, de quem ele cuidava muito cuidadosamente, carinhava. Colocou-lhe uma coleirinha que não tinha a ponta presa, era só pra fazer dela bicho de estimação.

                Chamou-a bem assim: Porca. Porca teria filhotinhos, e eles seriam cor-de-rosa como ela, redondinhos e muitos. Porca seguia Giovane feito cãozinho, pela estrada. Ele nem mais precisava parar e olhar por cima da muretinha do chiqueiro. Ia com sua marmita mais velha de todas, porque ele era o mais novo e o mais novo ficava com a marmita mais velha e furada. Só se o bebê novo fosse menino e quisesse ir para o roçar é que ele pegaria a marmita do irmão próximo mais velho e daria aquela ao futuro irmãozinho. Isso porque a mãe compraria uma marmita novinha para o pai. E os filhos passariam cada um a sua para o irmão seguinte. Por enquanto, ia ele com aquela marmita furada, por onde vazava o caldo do feijão nos dias em que havia feijão. Mas Giovane não ligava. Porca franzia o focinho ali por perto do caldinho de feijão entornado e seguia o caminho, apressando o passo para acompanhar o dono. Porca estava cada vez mais linda, rosada e redondinha.

                A mãe disse que foi Deus quem quis que Porca ficasse doente. Mas Giovane ainda não entendia Deus. Não aceitava a doença da porquinha amiga sua. A porquinha Porca morreu ainda jovenzinha, coitada, e Giovane só chorava. Não gostava mais de acordar pela manhã e ir para a lida com o pai e os irmãos. Não tinha coragem de olhar o chiqueiro, porque não queria se lembrar da ausência da Porca. E nem o não ver adiantava, porque não era mais a mesma coisa depois do fim da leitoazinha sua companheira. Giovane ficou triste demais e ainda mais quando também aconteceu de ele mesmo se adoentar, ainda pequenininho e sem ter esquecido a dor de ausência da porquinha.

                O médico disse uma palavra “câncer”, que ele também ainda não conseguia entender. Percebeu só que começaram a ir de vez em quando à cidade grande, e lá ele ficava no hospital alguns dias, tomava remédios muito, muito ruins. O menino emagreceu, enfraqueceu muito, demais. Voltava sempre mais frágil para casa. Às vezes doía, outras vezes não dava vontade de sair da cama. Via a mãe chorar alguns dias, sempre no final da tarde. Mas fingia não ver. Fingia não saber do quando ela se entristecia por ele. Devia ser como ele sofria quando Porca estava doente, medo de se perder dela, para sempre.

                O aniversário de Giovane estava por vir. Ele faria cinco anos. Faria uma mão cheia de anos de vida daquele jeito, magrinho e triste. O pai veio perguntar o que ele queria, esperando qualquer resposta que não fosse aquela:

                 – Quero a Porca, pai. Quero aquela minha porquinha, ela viva outra vez.

                O pai saiu sem saber o que dizer. Ou sem ter o que dizer, como é em algumas horas. Nem achava que seria bem enganar o filho se trouxesse uma outra leitoazinha, tal como aquela de antes. Mas não tinham dinheiro. O tratamento era caro, ir para a cidade grande era caro, carro emprestado porque o deles não iria até lá. O que tinham era para os oito filhos, e ainda viria mais um, que eles não queriam enquanto não existia, mas agora já queriam e esperavam, agora que ele se mexia e chutava a barriga da mãe, eles queriam,  sim,  claro. Mas não tinham como comprar uma porquinha nova para Giovane, seu presente de aniversário.  

                O homem resmungou umas palavras, saiu dali determinado. Pediu ao patrão que dividisse o pagamento de uma porquinha em muitos, a perder de vista. E o patrão disse serenamente que sim, que o homem pagaria quando pudesse, mas que seria da próxima cria, que os últimos leitões nascidos já estavam grandes e gordos demais para vender agora e a prazo.

                E foi mesmo sem saber que ganharia outra porquinha, a mesma e sua Porca, que Giovane sentiu o coração aquecido. E, por isso ou porque tinha de ser, o menino começou a engordar, e a ficar forte como deveria. Sarou e ganhou no hospital um carrinho lindo, que lhe deram todos os enfermeiros e médicos e recepcionistas, juntos, porque ele era “um menino muito corajoso”. Mas nada que fosse bom de ter como a sua Porca.

                Voltaram à roça, à casa toda cercada de florezinhas e terra. A horta estava verde, verde. Passarinho tinha muito. Giovane ainda não se arriscava a ir para o trabalho, ficava na sala, desenhando ou fazendo correntes de aros feitos de todo material que estivesse à mão. E aí o milagre se deu. O pai entrou pela porta, era finalzinho de tarde, a mãe já não chorava mais por causa dele. No colo feito criança, uma porquinha rosada e gordinha, assustada. Dessa vez Giovane soube exatamente o que fazer. Ainda encantado, sem conseguir falar, levantou-se e chegou perto do pai. Fez cafuné entre as orelhinhas da pequena porquinha. Olhou o pai de um jeito que eles entendiam. O homem soltou o bichinho no chão. Giovane colocou nela a coleirinha de sempre. E a leitoazinha caminhou ali pela sala, mansinha, sem parecer perdida. Claro, ela já conhecia a casa. Era a companheirinha de antes, que outra vez preenchia a felicidade ingênua do pequeno Giovane. A Porca mais linda que o menino tinha visto na vida inteirinha. Porca, linda, redonda, rosada e viva, viva.

Published in: on outubro 22, 2010 at 12:32 am  Comments (3)  

Do ser doce

                Ela era uma mulher mais cheia de nexos como nunca se viu. Ela toda fazia sentidos, andava alinhada pelos dias. Algumas vezes, as pontezinhas do ser coerente se tornavam aéreas, esvoaçavam. E então ela se dizia frágil. Mas ser, interiormente e de fato, não era.

                Estudou a medicina para cuidar do outro, porque ela só sabia olhar o outro.

                Foi que num dia ela estava em um postinho de bairro quase roça. Não era um dia exatamente bom. Fazia calor, as coisas do trabalho não iam como deveriam ir, coisa de quase tornar incapaz o entender do outro. Daqueles dias em que ficamos impermeáveis e herméticos, tudo em uma casca só.

                Entrou uma mulherzinha pequena e magriceleta com uma menininha, azeda azeda. Cheia de docinhos nas mãos. Foi para ser agradável ou por estar incomodada do desmedimento do silêncio que ela pediu uma balinha. E as balinhas eram tão poucas e deviam ser tão raras que a menininha fechou a cara, bufou, bateu pezinho no chão e escondeu para trás as mãozinhas, fazendo que não, ponto.

                Doutora sorriu. A mãe ralhou, pediu que a pequena se desculpasse pela malcriadez, exercendo sua simplicidade, dela.

                O pulmão andava cheio. Tossia feio e muito, perdia fôlego de subir rampinha pouca e frouxa que fosse. Ladeira não podia mais, namorar não namorava, comia de pouco, pouco. Perdeu muitos dos poucos quilos que tinha. Descurvou-se até ficar como estava: retinha retinha de até arquear na sua miudez.

                Não era bom, ela sabia. Doença difícil de controlar, consequência do tabagismo, prognóstico ruim, qualidade de vida que ia melhorar pouco com esforço muito. Tantas abstinências a aprender. A filhinha pequena – última de seis – a crescer, chupava balinha sentadinha na escada de dois degraus que servia para subir na maca. Chinelinhos cada um de uma cor, as perninhas e os bracinhos faziam dobrinhas muito empoeiradas, pretinhas até, fazendo linhas na parte de trás das coxinhas brancas. Cabelinho preso. Longe tão longe daquilo ali?

                Vai ficar bem, Dona Maria, ela mentiu. Nada que uns cuidados não resolvam. Sobe na maca pra eu examinar a senhora. Viu? Precisa só parar de fumar, vai ser bom demais pra senhora. Toma esse remedinho aqui, de manhã depois do café e de tarde depois da janta. Bebe bastante suco e água que também ajuda. Vai com Deus também. Claro, dia desses vou lá, sim, como doce de figo.

                Abraçaram-se paciente e médica, aceitação desconhecida de um lado e preocupação angustiosa do outro, com pontinha de compadecimento. A doutora sorriu carinhosamente, relembrando o ver o outro em dias de pequenas amarguras. Dona Maria, tão agradecida do cuidado, feliz no seu pouco entender. Deu a mão à mãozinha melada da pequenita, que se levantou e saiu arrastando os chinelinhos coloridos.

                Foi já depois de passarem pela porta que a menininha olhou para trás, desconfiada, e abriu  um sorriso, olhando de banda para a escadinha. A doutora não entendeu, porque nem achava que havia o que entender. Mas, de volta à mesa, viu na escadinha uma balinha. De morango, que é geralmente a de que as crianças mais gostam. Aí entendeu.

Published in: on setembro 17, 2010 at 9:20 pm  Comments (1)  

Duas lagoas

                Era uma roça com casinha e varanda, terra vermelha em volta, toda riscada de caminhozinhos paralelos e dançantes abertos por vassoura de palha. Como havia de ser, na varanda tinha rede e fogão a lenha. Como havia de ser o curral tinha cheiro de leite e vaca e o ar, um adensamento de quietude e acalanto. Como havia de ser, fomos recebidos com doçura, sorriso e café.

                Éramos três gerações de mulheres da família em visita à roça recém-comprada de um dos tios entre os irmãos mais velhos dos nove todos. Minha avó, minha mãe e eu. Minha mãe em final de dia trabalhado, minha avó munida de uma curiosidade paciente. E eu, indo, só.

                Minha avó, de maravilhada que estava, chamava mato de arbusto e era final de tarde, céu avermelhando. Ela estava orgulhosa do novo canto do filho, que merecia um lugar daqueles para descansar a cabeça de preocupações e desnecessidades. O caseiro era o Sebastião. Bastião, como também havia de ser. Roçava, roçava e voltava de bicicleta para a rocinha que também ele tinha, onde plantava feijão e isso só era o que cabia. Na roça grande tinha mais: cacau, tomate e laranja, lagoa e árvores de madeira e eucaliptos que cheiravam longe desde a estradazinha de terra.

                Naquele dia atrasamos a saída do Bastião, que de muito desprendido adiou a folga do dia para apresentar as terras que ele amava, era de se ver, mesmo não sendo as dele. Talvez não seja possível desamar a terra onde se planta e onde se vê nascer. E pelo belo da tarde, ou pelo silêncio da hora, ou pela leveza da alma, ou por tudo isso junto, minha avó, deitada na rede descascando mexerica, determinou:

                 – Aqui mora Deus.

                Sorri, diluída na minha mania de duvidar, do engraçado do exagero dela. Como se feito pessoa escolhesse lugar onde morar, de contrariar seu todo-presente.

                Bastião foi lá dentro e voltou, para interromper meu sorriso. Com duas garrafas plásticas nas mãos, uma de feijão preto e outra de feijão rajadinho. Entregou à minha mãe, que disse “obrigada” como primeira palavra, com abraço e pequenos festejos depois. Eu, para ratificar a grandeza do gesto e a gratidão dela, sugeri uma divisão pela metade do presente, comigo. Ele ouviu com atenção e contentou-se com o reconhecido da própria delicadeza.

                O que se faz na roça é o que nos pede a hora, sem determinação de regência de relógio. Duas lagoas. Numa se pega o peixe pequeno, que serve de isca para o grande da outra. Às vezes, quando muito se tem jeito, paciência ou sorte, peixe vem à flor d’água, mesmo sendo dos mais ariscos. (Dizem que há por aí quem chame surubim pelo nome ou brinque com traíra). Fruta que no pé tem mais cheiro e açúcar. Leite morno que nem de peito de mãe e rede como sem comparação com qualquer. E silêncio. Diferente como não se acha que podem ser as ausências uma da outra. Depois se come o peixe pescado, que por isso também tem mais gosto.

                E mesmo que estejamos sem relógio o tempo passa sem ser possível notar, e o tardar da hora dá o sinal de ser prazo terminado, instante mesmo da precisão de ir.

                Foi nisso que volta o Bastião, cujo bem puro dele, maior e único possível de se dar em presente é o feijão. Estende-me as duas mãos e sorri. Numa delas, garrafa de feijão preto. Na outra, o rajadinho, que era pra eu não ter de dividir com a minha mãe, não. Fazia tanto que não me amaciavam tão grande por dentro, e um aperto bom de chorar me subiu até os lábios, que apertei para evitar o assustamento geral.

                Levantamos todas as três, rumo ao carro. Minha avó no banco da frente, encantada, decidiu reiterar:

                 – Não é, não? Aqui mora Deus.

                Sorri de concordar e compreender, uma compreensão acelerada, de anos em horas, pela grandeza de ser do Bastião. Fosse pelo belo da tarde, ou pelo silêncio da hora, ou pela leveza da alma, ou por tudo isso junto, dessa vez desisti de conter a vontade de chorar. E o que agradeci foi o tudo de até então e de dali em diante, que era pra ficar com crédito.

Published in: on agosto 19, 2010 at 10:53 pm  Comments (2)  

Tião de Diomara

                Esta é uma história roubada. E é pedaço fato, pedaço fantasia. O fato é que tudo nela se deu. A fantasia está no lugar de onde ela parte. E assim é.

                Acontece que há Minas. E há o coração de Minas. E ainda há aqueles lugares onde pulsa o coração de Minas. Nesses lugares, as pessoas tantas vezes são chamadas por nome – ou quase nome – e por sobrenome de parentesco. Assim se dá com Dito de Maria Helena, Aparecida de Seu Toninho, Ana de Luiz Carlos. E assim se deu com Tião de Diomara. Tião porque nasceu Sebastião. De Diomara porque dela nasceu.

                Meu pai tinha conhecido Tião em tempos de roça. Agora lecionava e falava Latim. E escrevia bonito demais. Na nossa casa a geladeira velha tinha virado armário de livros. Meu pai olhava longe o rio que passava no quintal, as revoadas. E entre um e outro olhar sentava um de nós numa das coxas e contava passados. Meu pai – tão José quanto eu – sabia como ele só relembrar os outros.

                Numa tarde falou-me de Tião. De Diomara. Conhecido velho lá de São João da Serra. Tião que o chamava de Seu Juca. Lá, em Minas, tanto José vira Juca. E assim era meu pai – que tinha anos mais de José do que eu – na boca do Tião.

                Nos casos daquelas tardes foi que Tião se arquitetou para mim. Capinava desde menino, tinha vinco de magreza nas bochechas. A mãe dele – Diomara, pois – ia até o mercado, vinda da roça, com os bolsos costurados para proteger o dinheiro pouco. No mercado, descosturava e pagava o que devia. Tião achava linda a cana com pendão, nas raras vezes em que tinha tempo de olhar e ver. Almoçava marmita em pé de árvore, pulou uma vez na enchente. Não tinha as mãos calejadas, nem a alma. Meu pai sempre repetia que a ignorância era uma bênção, embora por tantas vezes não fosse paciente com ela. E Tião andava numa égua capenga, mascava capim. E por aí iam os caminhos de meu pai e Sebastião. Seu Juca e Tião. De Diomara.

                Guardei Tião com cuidado e inquietação por anos. Tornei-me homem. Intensamente José. Talvez excessivamente José. Vi meu pai amadurecer, envelhecer, adoecer. Vi meu pai, doente, emagrecer as coxas que eram nosso lugar de ouvir lembranças e sentir quentura de proteção.

                E meu pai, ferido na pele e sob a pele, endurecido pela dor e abrandado pelo tempo, resolveu sentir a sua saudade. Resolveu sentir falta dos companheiros da juventude, dos tempos de estudante, de comer arroz de grão curto – gosto de infância.

                Um dia decidi voltar às bandas de São João da Serra. Cidade pequena. Fui com a tarefa única e determinada de buscar Tião. Perguntei por ele. Encontrei, com custo, o filho. Soube que Tião, pai, estava numa roça, ainda com a terra, ainda com a enxada. E fui. Mulher e filhos, meus, no carro. Visivelmente impacientes. Lá no alto de um dos morros de Minas, uma silhueta só contra o céu. Um perfil magro que parou por causa da movimentação de nossa chegada em carro novo. Achei prudente uma identificação:

                – Tião de Diomara?

                Ele acenou, preguiçosa e amigavelmente. Subi. Ele desceu. Encontramo-nos no meio do caminho. Tião encheu-me os olhos de expectativa e lágrimas. Aproximei-me. Ele levantou o rosto, com ares de cansaço e incerteza.

                – Lembra de um Seu Juca, Tião?

                Ele só então sorriu, marcando os cantos dos olhos com os leitos fundos da idade.

                – Sô não mudou foi nada não, Seu Juca!

                Nos minutos seguintes, expliquei que não era Seu Juca, mas o filho dele. E perguntei se Tião iria comigo, naquele instante mesmo, ver meu pai. Se patrão deixar eu vou, sim, disse ele. E fomos falar com o patrão. Tião no carro com minha mulher e meus filhos. Curiosos, espreitando, olhando de lado o desconhecido. Cheios de maravilha e desconfiança.

                O patrão era bom. Eu ainda disse que pagaria o dia de trabalho de Tião, para que ele fosse comigo. Nem isso o homem quis. Pois fomos.

                Meu pai estava na varanda quando chegamos, como era de costume. Boina, relógio no bolso, rosto fino de barba espaçada. Desci primeiro, com os meninos. Disse que tinha visita importante para ele. Foi quando Tião abriu a porta e desceu, sem poder esperar ou não compreendendo o motivo do fazer mistério e adiar o adiado. Chapéu contra o peito, emocionado pela primeira vez desde que nos encontramos. Meu pai tornou-se seu Juca num instante. Abraçaram-se longamente.

                Tião de Diomara e seu Juca conversaram tarde toda e toda a noite. Dormiram umas poucas horas e acordaram com o nascer do sol, voltando a rios, milharais, conhecidos, mortos e nascidos, lugares e cheiros e pastos e bichos. E por todo um outro dia se falaram e se entenderam.

                Não demorou para que meu pai se fosse, depois da visita de Tião. Acalenta-me e – ainda mais do que isso – emociona-me lembrar o instante em que Seu Juca e Tião se reencontraram. Arroz de grão curto, esse meu pai não teve tempo de provar outra vez. Reencontramos, perdemos. Partimos e chegamos. Mas a ternura, essa, uma vez existente, não morre mais. E assim é.

Published in: on agosto 16, 2010 at 3:47 pm  Deixe um comentário  

Mais Bandeira

A Virgem Maria

(M. Bandeira)

O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do

                                                                                                       [cemitério de São João Batista.

Cavaram com enxadas

Com pás

Com as unhas

Com os dentes

Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renúncia

Depois me botaram lá dentro

E puseram por cima

As Tábuas da Lei

Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova

Eu ouvi a vozinha da Virgem Maria

Dizer que fazia sol lá fora

Dizer i n s i s t e n t e m e n t e

Que fazia sol lá fora.

                Depois de lido o poema, ainda numa primeira leitura, e antes ainda de ele estar sob a pele, decantado, antes mesmo de tê-lo tornado reflexão e análise, a impressão é a de um susto, de uma ruptura e, ao mesmo tempo, de reconhecimento. Assim como ocorre com a leitura de outros poemas de Bandeira, a sensação que se tem é a de remexer gavetas nossas, onde estavam guardados, empoeirados, sentimentos como o medo da morte, a constatação da finitude e da solidão, a indiferença do mundo em relação às nossas fragilidades. Encontramos, nas palavras do poeta, o que de nós mesmos estava esquecido ou distante e que, no entanto, está dito ali. Em Bandeira reencontramos nossa saudade do tempo passado da infância, nosso tão humano medo diante do fim.

              Em “A Virgem Maria” estão presentes e condensadas várias características comuns da poética de Bandeira, desde aquelas que se referem à forma e à construção até outras relacionadas à temática. Chama a atenção, em primeiro lugar, a extensão dos versos, que é absolutamente irregular, bem como a quantidade de sílabas poéticas em cada um deles. Essa distância em relação à métrica fixa, no entanto, não significa poesia pouco trabalhada ou despreocupada com o som, com a musicalidade, com o ritmo. Já na primeira estrofe, nos quatro primeiros versos e no início quinto, a aliteração em “k” é clara. Além dela, a anáfora aparece na repetição da preposição “com” que abre o segundo, o terceiro e o quarto versos. A sonoridade remete ao próprio som do escavar a terra, da enxada que golpeia o chão para fazer a cova que começa a surgir ali. A quebra da aliteração coincide com a renúncia, que é exatamente a representação do oposto, da luta – vã – contra aquilo que se reservava para o enunciador. A renúncia nasce na tentativa de frear os sentimentos de determinação irada de enterrar o eu lírico. O objetivo do oficial do registro civil, do coletor de impostos, do mordomo da Santa Casa e do administrador do cemitério de São João Batista, na determinação de promover o enterro, aparece em gradação, começando com o uso de pás e evoluindo para a escavação com os dentes.

              Ainda como comprovação de ser “A Virgem Maria” um poema trabalhado, esculpido, as rimas internas aparecem em mais de um momento, como se pode perceber em “funda” e “renúncia”, “cova” e “fora”. A aliteração em “v” também aparece, já na segunda estrofe, no final do primeiro e em todo o segundo verso. A própria extensão do primeiro verso, bem como a ausência de pontuação em praticamente todo o poema, tem o efeito de provocar a leitura não segmentada, intensificando a sensação de ansiedade e de tafofobia, quase apneia, a absoluta inquietação do eu lírico. Não parece haver dúvidas em relação ao fazer artesanal de Bandeira, à sua luta esmerada com as palavras, para esculpi-las a partir da matéria-bruta do cotidiano.

              Todos os tipos que aparecem escavando e preparando o sepultamento estão, de alguma forma, relacionados à morte dos cidadãos comuns. Eles personificam a face burocrática da morte, representam metaforicamente o acostumar-se, o movimento de tornar cotidiano o momento tão temido pelo eu lírico, que suspira de renúncia. A temática da aproximação da morte e os questionamentos sobre isso são comuns na poesia de Bandeira (algo natural para alguém que adoece aos dezoito anos e passa outros tantos a ser repetidamente desenganado por médicos). Como a cova é mais profunda que o suspiro de renúncia, o sepultamento metafórico de fato se dá, e a determinação dos indiferentes, a opressão do mundo se sobrepõe à resistência e à tentativa de agarrar-se à vida. As “Tábuas da Lei”, colocadas sobre a sepultura, são o coroamento do enterro, a constatação prática do fim.

              Na segunda estrofe, porém, ocorre uma mudança na forma de olhar. A sonoridade seca das consoantes surdas que prevalecem na primeira estrofe dá lugar às sonoras e às nasais, que “musicalizam” a estrofe seguinte. E essa mudança de rumo não se dá só em relação aos sons, mas é também uma mudança da sombra em direção à luz, da aspereza em direção à doçura, do desespero em direção à esperança. Não é à toa que a segunda estrofe começa com a adversativa “mas”. Ela é diametralmente oposta à primeira. O caminho do poema vai de um primeiro momento negativo, frio, claustrofóbico e obscuro para um outro claro, aquecido e arejado. A cova e o sol são opostos perfeitos. Opostos também são os temas que compõem ambas as estrofes. Enquanto na primeira estão os profissionais com sua burocracia e praticidade, na segunda ganham espaço a espiritualidade e o subjetivismo.

              É “lá de dentro do fundo da treva do chão da cova” que o enterrado escuta, vindo como que de longe, devagar e aos poucos, a doce voz da Virgem Maria. O diminutivo na palavra “voz” ajuda na construção de uma atmosfera mais agradável, mais amena, mais serena do que aquela apresentada ao leitor anteriormente. E é para dizer que há sol lá fora que a voz da Virgem Maria se pronuncia, num anúncio que, por sua simplicidade cotidiana, é quase maternal. Depois de enterrado e colocado no fundo da cova, debaixo do chão, depois de ver suplantado seu suspiro de renúncia pela opressão alheia, o eu lírico ouve a própria voz da esperança. E, como se não bastasse levar até a sombra a possibilidade do sol, a voz da Virgem Maria o faz insistentemente. O advérbio aparece grafado com letras espaçadas no poema, o que serve para enfatizar a insistência na chegada da esperança. O leitor, ao se deparar com a palavra longa e grafada com espaços entre as letras, necessariamente faz leitura mais demorada, intensificando o significado, concentrando ali a noção da insistência, imprescindível para tentar reverter a situação de opressão e amargura construída na primeira estrofe.

              Aliás, a presença de advérbios em destaque – muitas vezes escritos solitários em um verso – é característica reincidente na poética de Bandeira. Tal uso se dá, por exemplo, em “Profundamente”, desde o título, em “Maçã”, no verso “Infinitamente” e em “A Morte Absoluta”, no verso “Completamente”, para citar apenas três exemplos. Outro movimento que não é exclusivo é esse que vai do sombrio ao luminoso, que aparece de forma muito parecida, por exemplo, no poema “Martelo”. As formas contraditórias também aparecem, de modo semelhante, em “Maçã”, por exemplo, já que a fruta tem dois lados contrastantes, paradoxais e, ao mesmo tempo,indissolúveis. Outro paralelo que se pode fazer entre “Maçã” e “A Virgem Maria” é o quanto somos levados pelo olhar para dentro da cova e depois para a visão do sol, assim como o observador em “Maçã” nos rapta o olhar e nos leva a visualizar a fruta com suas faces e o quarto.

              Chama a atenção, também, a ideia de que é de dentro da cova que a voz se ouve, e é de lá mesmo que é possível perceber a possibilidade do sol. Ou seja, é de dentro do chão que surge o lirismo. É o próprio ato de desentranhar a poesia, tão característico de Bandeira. Num lampejo, num instante, o leitor é arrebatado para olhar o céu a se clarear: é o momento de trazer luz intensa – insistentemente iluminar – ao chão,à cova escura. Trata-se do instante de “alumbramento”, também presente aqui.

              O fato de escolher a Virgem para anunciar a esperança é um traço da religiosidade que se apresenta em Bandeira. A santa aparece próxima, a falar com ele, numa experiência pessoal que desmistifica o sagrado, mas que não o afasta de um homem de formação religiosa. Trata-se de uma religiosidade despreocupada com os formalismos e com os ritos e dogmas, mas sim uma espécie de religiosidade “dessacralizada”, com permissão para misturar-se ao profano.  Em Libertinagem, mesmo, há outro exemplo dessa forma tão característica de dialogar com o sagrado, em “O Anjo da Guarda”. Afinal, o anjo também se aproxima do eu lírico, permite-se ficar aos pés dele. E é um anjo “moreno, violento e bom – brasileiro”.

              O poema é, como um todo, a concretização da desilusão e da melancolia em forma de palavras. A indiferença, a insensibilidade e a opressão estão representadas nas figuras que tentam cavar a cova e promover o enterro de um vivo. Do outro lado, aparece a vontade de mudança e de libertação da tentativa de aprisionamento. O prenúncio da morte, sua aproximação iminente e a insegurança causada por tal ameaça estão metaforizados na ação daqueles que escavam. A libertação, a esperança e o desejo de novos e diferentes tempos, na presença da Virgem Maria a anunciar a presença do sol. Embora, no poema, não haja o desfecho de saída da escuridão, o alento trazido pela Virgem é inegável.

              Segundo Adorno, em suas Notas de Literatura I, “aquilo que entendemos por lírica contém em si mesmo, quanto mais ‘pura’ ela se oferece, o momento da fratura. O eu que ganha voz na lírica é um eu que se determina e se exprime como oposto ao coletivo, à objetividade”. Então, “A Virgem Maria” é o lirismo mais puro, como quase tudo em Bandeira. Causa a cisão necessária para que nos reconheçamos como indivíduos ali, e para que sejamos capazes de nos reconstruir depois da queda, como uma estatuazinha de gesso se recompõe depois de sofrer. O fato é que, depois de lido o poema e decantados os seus sentidos, fica a sensação de que, apesar da opressão do mundo, apesar da rudeza com que convivemos em nossa certeza de finitude, apesar da passagem inexorável do tempo, apesar de tanto tentarem nos botar à parte da vida no seu sentido mais intenso – mesmo que não sejamos todos tísicos – há ainda a possibilidade de sol. E, mais do que tal possibilidade, mansamente esperançosa, há uma voz para nos avisar sobre sua presença.

(Fábia Alvim)

Published in: on julho 16, 2010 at 9:48 am  Deixe um comentário  

Andorinha

(Manuel Bandeira)

Andorinha lá fora está dizendo:
— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . .

Published in: on junho 29, 2010 at 10:49 pm  Deixe um comentário  

Outro rio

                                                                            (Fábia Alvim)

Um dia a enchente ocupou o térreo da casa e

– da varanda –

víamos ir pelo rio afora

que agora era o chão inteiro:

Minha boneca da infância mais antiga,

O álbum de fotografias onde vovó se casava,

Livros de medicina da minha mãe,

Espingardas velhas que mataram paca

                                                                     capivara

                                                                     anu

                                                                     pomba do mato

pra cozinhar,

O pratinho de comer chuchu e feijão com vovô,

Balde e pá pra areia do parquinho,

Sapatinhos de ir dar pão pras galinhas.

O rio levou tanta poesia de mim, criança.

O cotidiano é um rio de levar poesia em enchentes.

Mas existe alguma espécie de ponte

De matéria etérea

De palavra alada?

De desaviso e rompante

Que salva a poesia da correnteza.

E ela só às vezes se constrói

Sem aviso

Sem que nos preparemos para a sua construção.

Construiu-se ontem

e baixou

de mim ao outro

quando o menino, na rua,

– da rua –

catou pacote brilhante de bolacha,

colocou na cabeça,

fez chapéu.

Agora era príncipe.

Published in: on junho 15, 2010 at 12:49 pm  Comments (3)  

Fotografia

                                                               (Fábia Alvim)

Era assim:

Quando eu vinha no metrô

Uma senhorinha

branquinha branquinha

Olhinhos azuis desarmados e europeus – vida toda a ver

Acariciamava

As mãozinhas

pretinhas pretinhas

De um menininho – vida toda a vir

Ela quase a chorar, sorrindo.

Ele quase a sorrir, chorando.

Quisera eu

fazer um carinho no rosto do tempo – rude –

e fazê-lo amansar

e esquecer de passar

para nunca mais…

Published in: on junho 11, 2010 at 9:45 pm  Comments (3)  

Gesso (Manuel Bandeira)

Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova
– O gesso muito branco, as linhas muito puras –
Mal sugeria imagem da vida
(Embora a figura chorasse).
Há muitos anos tenho-a comigo.
O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de
[pátina amarelo-suja.
Os meus olhos, de tanto a olharem,
Impregnaram-na de minha humanidade irônica de tísico.
Um dia mão estúpida
Inadvertidamente a derrubou e partiu.
Então ajoalhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,
[recompus a figurinha que chorava.
E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo
[mordente da pátina…
Hoje este gessozinho comercial
É tocante e vive, e me fez agora refletir
Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu.

(Porque agora é tempo de descobrir Manuel Bandeira)

Published in: on junho 8, 2010 at 11:44 pm  Comments (1)  

Ciclo de vida retirado do livro de Biologia e adaptado para a vida real

                                                                        (Fábia Alvim)

Nasceu

Cresce

Viver

Reproduza

Morrerá.

Published in: on junho 2, 2010 at 10:35 am  Deixe um comentário